Escopo do Laboratório

As pesquisas dos integrantes do Laboratório de Big History perpassam transversalmente as seguintes problemáticas:

1. O problema das "duas culturas" no pensamento acadêmico ocidental

A disciplinarização do ambiente acadêmico ao final do século XIX permitiu, desde então, valiosa produção de conhecimento especializado. Nesse contexto, a fragmentação do conhecimento levou ao surgimento de "duas culturas", tal como sugeriu C. P. Snow, apartando as "Humanidades" das ditas "ciências naturais". Cumpre, no século XXI, fomentar espaços de convergência de saberes disciplinares que eliminem o hiato entre as "duas culturas", permitindo assim a integração de conceitos e aparatos teóricos que evidenciem novos objetos de estudo, até então invisíveis, e novas abordagens para velhos objetos.  

2. Uma reconceituação do problema da longa duração

Apesar dos esforços empreendidos por historiadores como Fernand Braudel e sociólogos como Immanuel Wallerstein no século XX, a percepção da existência de fenômenos de longa duração que interagem dialeticamente com eventos no tempo curto dificilmente ultrapassou uma dimensão secular. Os marcos da "geo-história" braudeliana, em que fenômenos geológicos e ambientais assumem papel central na conformação dos "ritmos das civilizações", acabou por não ensejar a própria dimensão histórica desses mesmos fenômenos, tornando o ambiente apenas "paisagem imóvel". Gunder Frank, ousadamente ao postular uma história de cinco mil anos para o sistema-mundo, faz avançar a debate, mas não o suficiente. Pontes entre as "duas culturas" nos permitem reconceituar radicalmente o problema da longa duração, permitindo assim observar as sociedades em uma perspectiva multimilenar, e como parte indivisível de uma longuíssima história da crescente complexidade dos regimes de organização de matéria e energia no cosmos. 

3. Uma reconceituação do humano

A maior parte dos habitantes do planeta é herdeira de milhares de anos de formas de entendimento exclusivista do que significa o conceito de "humano". Esse entendimento, ainda que variando entre culturas, espaço e tempo, manteve razoável continuidade na medida em que concebeu o humano em oposição a uma noção fluida de "natureza". A reconceituação da longa duração e as pontes entre as duas culturas nos permitem construir um entendimento pós-humano da evolução das sociedades e dos sistemas-mundo, em que a noção de "história" contemple variação e transformação integradas em macro-escalas normalmente inacessíveis às ciências sociais e humanas convencionais. 

4. O humano como força geológica: o Antropoceno

A industrialização, a tecnologia, a revolução científica e o uso intensivo de combustíveis fósseis deflagraram uma dinâmica sistêmica global sem precedentes que transformou uma espécie - Homo sapiens - na mais poderosa força geológica desde o Pleistoceno. Assim, recebe o nome de Antropoceno a era geológica na qual as sociedades humanas se tornam a mais decisiva força a moldar o mundo natural do qual são parte indissociável.